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História da criação do Povo Pury: nascimento, morte e encantamento

  • Foto do escritor: Puri Vivo
    Puri Vivo
  • há 7 dias
  • 3 min de leitura

Nhãmãnrrúre Stxutér Kaiá Pury (Felismar Manoel)


Na história de nossa criação contada pelos mais velhos do Povo Pury da região de Guiricema (MG), Nhãnãdú-dokóra criou todas as coisas e as diferentes divindades. Numa noite de lua cheia, ele estava passeando pela floresta, à margem de um lago, desses lagos cujo terreno é de argila, viu a imagem dele refletida na água e a chamou de sombra.

Ele ficou tão entusiasmado em ver a sua imagem refletida na água que resolveu criar o ser humano. Então, pegou a argila e fez da argila o homem e a mulher. Colocou neles a semente da procriação e a sua sombra - sua imagem -, que constitui o seu espírito, aquela componente que não morre, o lamã. Deu assim, vida ao ser humano, como espírito, alma espiritual ou lamã.

Em seguida, Nhãnãdú-dokóra entrega o ser humano à Tupã para que Tupã coloque nele a tutáki, a alma material, da própria natureza, a mesma energia vital que está presente em todos os seres vivos.  Esse ser humano vive, então, com essas duas dinâmicas: tanto a energia vital, a tutaki, alma material, como a lamã, que é a alma espiritual.

Os mais velhos contavam que, quando o ser humano morre, o corpo vai se desfazer. A tutáki vai ser reincorporada à terra, onde ele será sepultado, e a lamã vai residir na árvore frondosa e aguardar a cerimônia do encantamento, chamada de ambó-gaiúna, e se tornar um encantado.

O encantado é uma alma que passa a constituir um componente favorável à manifestação da vida no lugar onde estiver. É por isso que o Pury sempre luta para que junto à sua casa tenha uma árvore frondosa. Nessa árvore frondosa existem as moradas tanto de lamã como dos encantados.

Algum lamã pode desviar-se quando conduzido para o encantamento e ficar aí um espírito, um lamã criador de confusão. Por que confusão? Porque ele não se tornou um encantado, então não vai realmente se alinhar para ajudar os seres vivos que vivem naquela região e não é um ser vivo como antes. Ele só está vivendo a sua parte espiritual. E, por essa razão, cria confusão.

Quando o ser humano desencarna e se desencaminha, se torna um espírito criador de confusão. Ele vai criar confusão na vida do cavalo, nos trabalhos que alguém está se propondo. Eles gargalham quando as pessoas estão se desentendendo entre si.

Por essa razão que o povo Pury entende que a formação do caráter começa desde o nascimento, e existe toda uma preocupação dos pais em orientar a vida dessa criança até os seis anos, com todo cuidado. A educação de base, que se recebe pela convivência com as pessoas significativas da vida da criança é que funciona para formar o bom caráter de um Pury – o purinã (puricidade), que vai manifestar uma boa personalidade. Então, esse caráter correto do Pury é reconhecido pela palavra.

Até três anos, a mãe é a orientadora principal nessa formação. De quatro a seis anos, até chegar a sete, ele passa a ser orientado ou pelo Opê-tarré ou pela Opé-Inhã, que são os que complementam a orientação dessa criança.

Quando um Pury se desvia desse caráter de puricidade, ele se torna um bugre. Então, o conceito de bugre na língua Pury é uma coisa pejorativa, porque é uma pessoa Pury que deteriorou o seu caráter, deixou de ser Purinã. E, quando conduzido para o encantamento, pode se tornar um lamã criador de confusão.

 
 
 

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