O Neologismo dos Falares Pury
- Puri Vivo

- há 2 dias
- 2 min de leitura
Nhãmãnrrúre Stxutér - Felismar Manoel

Antes da Profa Maria da Glória Lessa pelas cercanias do povoado Cruzeiro de Guiricema, houve o Prof. Vergílio ou Vergílho. Não soube o seu nome todo ao certo. Esse professor era muito admirado por muitas pessoas, por sua erudição e camaradagem, e também pelo jovem mais velho do que eu, o Vicente Eugênio de Andrade, irmão de José Eugênio de Andrade, o meu cunhado, casado com minha irmã Edés. Vicente muito o admirava por sua expertise em matemática.
Vamos ao neologismo do Prof. Vergílio. Os falares da língua Pury têm a palavra SIMÉA para o conceito de FLORESTA, MATA VIRGEM, isto porque tal mata tem muitos emaranhados de vegetais e EMARANHADO, nos falares pury, é SÍMA. Daí a ação de EMARANHAR é SÍME, sendo que deste conjunto conceitual temático o povo pury buscou o seu conceito nominal para designar as coletividades que vivem nas florestas que ali nasceram, designando-os como SIMEÕ/Ã, SIMEÓN/ÁN, em oposição aos povos alienígenas que invadiram suas terras, seus solos de nascimento.
O Prof. Vergílio presenciou a fase de menosprezo que as autoridades locais empregavam para os ancestrais pury e seus descendentes, atribuindo a eles deficiência cognitiva e de valor inferior, o que muito entristecia as mães e pais das coletividades pury. Educador responsável e consciente que era, o Prof. Vergílio passou a denominar e ensinar aos outros que, se os invasores e seus amigos eram europeus, os pury, koropó e koroado eram povos os SIMEONITAS, derivando este neologismo da palavra pury e também koroado SIMEÕ/Ã, SIMEÓN/ÁN, que quer dizer povo filho da floresta, da mata.
O Prof. Vergílio sabia das políticas de anulação das etnias pury, koropó e koroado e da invasão de seus territórios, com violentação e captura de mulheres e crianças, escravização e estratégias de morte dos homens. O clero católico da zona da mata apenas agregava alguns jovens para aprendizado e mão de obra, mas não tinha uma voz profética contra tais erros. Nossa região do Cruzeiro ficou marcada porque acolheu e abrigou em algumas fazendas os fugitivos de Ubá, os partidários da política integralista, distinguidos como "camisas verdes", que usavam a LÍNGUA BRASÍLICA em suas saudações e conversas. Isto motivou que, mais tarde, o subdelegado Nazaré proibisse o povo pury de usar a fala pury em suas conversas e festejos, com mais rigor entre 1947 a 1949, período em que comecei a frequentar a escola da Prof.ª Maria da Glória Lessa. Havia franca solidariedade entre os professores, seus alunos e parentes.
Minhas homenagens às memórias desses dois professores citados e ao honrado ex-aluno Vicente Eugênio de Andrade.
Salve os cruzeirenses.
Felismar Manoel
Nhãmãnrrúre Stxutér.



Comentários