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O significado do nome segundo a Tradição do Povo Pury de Guiricema (MG)

  • Foto do escritor: Puri Vivo
    Puri Vivo
  • 18 de abr.
  • 7 min de leitura

Carmelita Lopes dos Santos - Ñáma Telikóng Pury 


Na história oficial, a extinção do Povo Pury foi dada no Censo Geral (1872) do Império (1822 a 1889), o primeiro da história do Brasil, quando classificados como “pardos” (os que se declararam mulatos, caboclos, cafuzos, mestiços, mamelucos etc. e os indígenas que viviam em aldeamentos ou postos indígenas) sob a alegação de que não eram mais puros; porque a maioria desapareceu dos aldeamentos; ou por estarem espalhados, fazendo parte da população geral.

Como política indigenista, até meados do século XIX, o encobrimento da identidade originária, o esvaziamento das raízes culturais (incluindo a língua) e a ‘dispersão involuntária’ se deu por estarem dentro de áreas de riquezas como o ouro à época da invasão. Novamente, o paradigma da extinção torna permissiva aos indígenas arredios, entre eles o Pury, à colonização e à escravidão nas “guerras justas” e “proteção” aos aliados (Santos, 2024).

E, como reforço do ‘empardecimento’, tendo o paradigma da extinção como política indigenista no processo de miscigenação e de invisibilidade da etnia Pury, além dos censos até 1980, outros documentos oficiais, como alguns livros de batismos registram os Pury como ‘pardo’.

Uma história de conflitos, confrontos e rupturas, motivadores ainda da “cultura do silêncio" (Freire, 1976) desde a invasão europeia como forma de defesa e manutenção dos que conseguiram ‘se resguardar embaixo da pedra’, como informa o Pury Neném Lupin de Araponga (MG): "Aqui em Araponga foi colocado uma pedra sobre os Pury" e essa pedra, segundo ele, por um lado, serviu de apagamento histórias muito tristes e reviverem outros problemas e, por outro, muita coisa antiga boa foi pra de baixo dela também. Que foi preciso ser sábio ao mexer na pedra, pois não serem mais vistos externamente como indígenas durante muito tempo evitou problemas que não queriam voltar a ter. Esse gesto, na contramão da extinção, investe no silenciamento como linha de fuga, de resistência.

Logo, “não há como não considerar o fato de que a memória é feita de esquecimentos, de silêncios. De sentidos não ditos, de sentidos a não dizer, de silêncios e de silenciamentos” (Pêcheux, 2009, p. 53).

Ao ler os documentos citado em duas postagens do blog da Profa. Dra. Maria Carlota Amaral Paixão Rosa sob o título: E onde foram parar os antropônimos indígenas?[1], chama a atenção, na Parte 2, o apagamento e a aculturação direta na troca dos nomes originários dos pury para nomes de batismo, conforme quadros 1 e 2 abaixo, retirados da postagem:

 

Quadro 1: Índios de nação Puri que forão baptizados pelo Rev. Frei Bento de Gênova, em Casa do Snr. Manoel Garcia e foi Padrinho, o mesmo e Madrinha Francisca Maria, 3 de abril de 1832.

Santo Antônio de Pádua – Rio de Janeiro

Nomes do Baptismo

Nomes do Matto

Maximiano

APARÃN

João

BIANÃ

Fidelis

DAQUE

João

RANÉ

Maria

JERZOA

Maria

CAPORA


Quadro 2: Aldea de São João de Queluz aos 14 de dezembro de 1800. – Francisco das Chagas Lima, Parocho actual., o qual é atribuída a catequização dos Puri do local

 

Aldeia de São João de Queluz – São Paulo

Nomes do Baptismo

Nomes do Matto

Manoél, fallecido

CHANIM, cacique, 60 annos:

Maria, fallecida

AXIQUÁ, mulher, 40 annos:

 

PUTÚ, genro, 22 annos (Não baptizado, fugiu)

 

AHUPAN, mulher, 18 annos: Maria, falecida

Januarlo, fallecido

APAGUÍ, homem, 18 annos

 

FYIAU, mulher, 16 annos (fugido, não baptlzado)

 

SAMBUAHÁ, mulher, 16 annos (catecumeno)

 

XICÁ, mulher, 50 annos (morreu fugitlvo)

Maria, fugitiva

MBÓ, mulher, 50 annos:

 

PAÓ A HUÃ, menino, 5 annos (catecumeno)

 

TIPOÃ, solteira, 20 annos (catecumeno

 

Outro fato que chama a atenção, não menos importante, são antropônimos (antropo- + -ónimo) pury listados. Segundo nosso consultor, Nhãmãrrúre Stxutér Pury - Felismar Manoel (1939)[2]. dos 6 (seis) antropônimos pury do quadro 1 mesmo sem a idade, consegue identificar 4 (quatro) por hipótese:

APARÃN (Maximiano) = Alguém que segura o sapo (genérico)

apa = ideia de algo que contém o outro + rãn vem de rãna (animal tipo sapo)

RANÉ (João) = Deslocado (tirado do lugar)

JERZOA (Maria) = Existem poucas palavras com j no pury

CAPORA (Maria) = Pessoa com destreza para golpear

capo- kapóe – verbo golpear

No quadro 2, já com idade, consegue identificar dos 11 (onze) antropônimos pury 9 (nove) por hipótese:

CHANIM (Manoél), cacique, 60 annos: Alguém que interfere na vida do outro

Xá = vida; nim/níma = tecido tecedor da vida (interfere na vida do outro)

AXIQUÁ (Maria), mulher, 40 annos: Mulher distante do pênis

Axim = pênis kuá = distante

PUTÚ, genro, 22 annos (Não baptizado, fugiu): Alguém colhedor de folhas

Putú = formiga

Geralmente dados aos que faziam busca de folhas comestíveis (mateiro = colhedor de folhas)

AHUPAN (Maria), mulher, 18 annos: Aquela que se coloca contra (egoísta)

Arr/ arrú = contraditório + pan = nós

APAGUÍ (Januarlo), homem, 18 annos: Aquele que se julga mais alta montanha (alta montanha)

apa = partícula para planeta terra + agí/agir = pico da montanha

FYIAU, mulher, 16 annos (fugido, não baptlzado):

fy = ? iau = oferenda 

SAMBUAHÁ, mulher, 16 annos (catecumeno): Confessora de bebê

sambe = criança bebê + uarrá = confessor(a)

MBÓ (Maria), mulher, 50 annos: Possibilidade de ser uma pessoa com as características de uma árvore: solidez, sombra, frutos...

mbó = árvore

PAÓ A HUÃ, menino, 5 annos (catecumeno): Criança como uma cotia em relação à onça.

paó= cotia a = artigo rruã= onça

TIPOÃ, solteira, 20 annos (catecumeno): Aquela que guarda sabedoria dos ancestrais

Ti = partícula repetitiva para ancestrais poã = pote para água

Cabe ressaltar que, no quadro 2, por haver a informação da idade, pode se identificar se o nome dado é provisório como PAÓ A HUÃ, menino, 5 annos (catecumeno) ou definitivo como TIPOÃ, solteira, 20 annos (catecumeno), pois, na tradição do povo Pury de Guiricema (MG), conforme Nhãmãrrúre Stxutér, nosso consultor, há uma diferença entre nome afetivo, provisório, dado pela mãe quando apresentado à lua após o nascimento e o nome definitivo que remete a identidade, o caráter do pury.

Segundo Nhãmãrrúre Stxutér, na sua época de vivência entre os Pury, a criança, no nascimento, recebia um nome provisório - sem sentido sobre identidade, caráter -, dado pela da mãe, ficava em um quarto sem a luz do dia, iluminado com lamparina de azeite (óleo de mamona feito pelos pury), até a chegada da lua cheia para então e a ela ser apresentada.

Após ser apresentada à lua cheia, a criança era apresentada ao Opê-tarré que a acompanhava e instruía. É ele quem sugere o nome definitivo da criança ao Opê-antár, que vai passar ações afirmativas à criança que o confirmem sugerida pelo Opê-tarré e o período de luas a serem cumpridas.  Essas ações ocorrem no Rito de Passagem, quando nascem os pelos pubianos, período de definição do ego, da maturação biológica, da definição do papel principal na comunidade, da confirmação do nome provisório ou modificação, de ser posto à prova.

Quando uma criança nascia, ao ser apresentada à lua cheia, ela recebia um nome provisório, dado pelo foro íntimo da mãe, mas esse é provisório, sendo substituído pela mandjira, considerado o verdadeiro nome do caráter indígena. É um nome essencial. O Pury reconhece um nome essencial daquilo que a pessoa é, na sua essência, no contexto de sua vida. É isto que significa o nome Pury, por isso que o nome - mandjira - só é confirmado no ritual de passagem da infância para adolescência. O nome, ou mandjira, se baseia no caráter e temperamento da pessoa, como aspecto da sua essência, de modo figurativo, ou idealizado, sempre terá aspecto funcional. (Nhãmãrrúre Stxutér - Felismar Manoel,depoimento em 2019)

No caso dele, no Rito de Passagem, a escolha de seu nome pury definitivo levou em conta alguma característica sua. Como ele conseguia nadar em pé córrego acima – o que não era muito tranquilo para os outros - até chegar à casa do opê-antár diariamente, sua ação afirmativa foi transportar uma erva que não poderia ser molhada e, então, deram a ele o nome Nhãmãrrúre Stxutér (córrego tranquilo/bonito).

Esse Rito de Passagem, mudança de nome (nome do caráter pessoal), era feito no Festival da Mocidade-Juventude/ das Flores-Perfume (equinócio da primavera/ lua cheia), que inicia com um período de meditação sobre a renovação e recomposição da natureza. Nesse Festival, moças e rapazes passam por ritos de passagem para a fase adulta. As atividades eram voltadas ao tema com jogos esportivos individuais da mocidade como escalar coqueiros e ribanceiras, salto com bambu, competição de nado em pé no remanso carregando balaio, arremesso de disco, tiro com arco e flecha (jovens deitados de costas no chão projetavam flechas em direção às alturas); e, coletivos como carregarem toras numa corrida, jogo de peteca feita de palha de milho. Ainda havia a Dança de Caboclo[3]realizada pelos rapazes e as moças assistiam com enfeites no cabelo com flores de cipó de São João.

Há ainda, nesse período, o encontro dos jovens com a contação de história da ancestralidade, o Txambô, que é quase um ritual, se repete em celebração a cada Festival das Flores, que é da Juventude por ocasião da estação das flores. É um momento nas celebrações que o antár, mais velho em idade ou rré, ancião, indicado (homens na cultura da etnia), ou o Opê-antár, mais velho com autoridade, vem ao encontro dos jovens, principalmente, da juventude e narra a história da ancestralidade.

Existe uma Txambô, que é da ancestralidade, mais geral na festa das flores contada pelo Opê-antár, maior da aldeia, ou rré, ancião, indicado (homens na cultura da etnia). E a Txambô, que é mais da ancestralidade parental consanguíneo que começa na primeira infância contada pela mãe (mulheres na formação da etnia) anualmente na ocasião da apresentação da lua cheia até os seis anos e de sete ao opê-tarré. Finalizavam com a comemoração pury dos okoroe, as divindades dos céus, abaixo de Dokóra.

E é por conta do Rito anual da Txambô da ancestralidade que nosso consultor tem memórias afetivas quem vem transmitindo aos mais novos e com ele vamos aprendendo sobre as tradições do Povo Pury de Guiricema (MG)

 

[2] Dados analisados a partir de informações recebidas do pury Nhãmãrrúre Stxutér- Felismar Manoel (1939) da família ancestral Kaiá, enquanto consultor falante da língua Pury, da pesquisa de Doutorado da autora no Programa de Pós-Graduação em Linguística – PPGLIN/ Centro de Letras e Artes – CLA / Faculdade de Letras – FL /URFJ em andamento com adição do conteúdo desta investigação. Felismar Manoel, nascido em 1939, é integrante da terceira geração de nativos pury da Região da Fazenda dos Gregórios, Vila Cruzeiro, Município de Guiricema na Zona da Mata de Minas Gerais.  Ele é Doutor em Ciências da Religião, pelo Seminário Teológico Santo André, SETESA/RJ, Mestre em Ciência da Motricidade Humana, pela UCB/RJ, Especialista em Docência Superior, pela IBM/RJ, em Psicanálise Clínica com Supervisão Didática, pela SFPC/RJ, Especialista em Psicomotricidade Sistêmica com Formação Didática, pelo CEC/RJ, Bacharel em Fisioterapia, pela IBM/RJ, em Filosofia e Teologia, pelo SETESA/RJ.

[3]Dança dos Caboclos, onde é encenada através da dança a história, os costumes e a preparação do jovem guerreiro, em três atos: Dança com Porrete (Lança), Dança com Arco e Flecha e Dança da Trança de Cordas.

 
 
 

1 comentário


Olivia Batista ou Maria Zoronga
Olivia Batista ou Maria Zoronga
há um dia

Muito interessante! Gratidão ao Felismar pela sabedoria e pela prontidão em repassar seu conhecimento. Gratidão a Carmelita pela pesquisa e a disponibilidade. Ténu-arrí! Tekarréme prika!

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