Puríuma Rrapuínára - Orquestra Pury
- Puri Vivo

- há 6 horas
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por Nhãmãrrúre Stxuter Kaiá - Felismar Manoel[1]
Qualquer simeón (nativo das localidades de matas, natural das florestas, indígena) pury é uma pessoa musical por excelência, tendo seus cinco tons preferenciais das florestas ou regiões onde vivem, presentes em suas consciências. Seu instrumento básico é a gaita (rrapuínô) bucal, composta de cinco apitos feitos para reproduzir cinco tons principais capturados dos cantos da passarada da localidade, pois em honra à Tekuára Sú, (o equilíbrio dos sistemas interatuantes), não ousam poluir o concerto natural produzido pela passarada da localidade onde todos compartilham a convivência em harmonia. Neste sentido a gaita tem a função de reguladora da afinação dos instrumentos musicais da orquestra pury.
Dois instrumentos musicais pury, a viola (graúnrrapuín) e a flauta (terára), passam pela afinação conforme os cinco tons da música pury, pois devem se harmonizar com o concerto melódico da passarada e no respeito às regras da Tekuára Sú (equilíbrio e harmonia entre os sistemas interatuantes da localidade).
Em Guiricema e adjacências os simeóne pury organizavam orquestras instrumentais e grupos cantantes (glerema tekondô) dedicados, que em nossa localidade eram denominadas “modinhas da serra”, mesmo não havendo serras na região. Nas orquestras, além dos instrumentos que reproduzia os cinco tons da passarada local, incorporavam também instrumentos que representavam sons da natureza, do tempo e do ritmo adotado.
Principais instrumentos da orquestra pury
1 – Gaita Bucal / Txorema Rrapuinô - Conjunto de cinco apitos reproduzindo os cinco tons principais de cantares dos pássaros da região ou localidade. Eram agrupados em um galho de madeira em forma da letra ípsilon. Servem para afinar instrumentos musicais e acompanhar cantares. Usa-se tubos de taquara ou bambu para sua confecção, nos quais se sopra para produzir os sons conforme os tons dos cantares dos pássaros da localidade.
2 – Flauta / Terára - Feita de tauara, bambu, ou outros vegetais, sendo de três ou de cinco furos, podendo passar pelo ajuste da afinação:
– Pembé terára / Flauta Pequena (de três furos) - Tonsgrave, médio e agudo.
- Eremá Terára / Flauta Grande (de cinco furos) – Os cinco tons da música local.
3 – Trombeta / Txopó - Feita em um tubo mais longo, detaquara ou bambu, tendo a saída do som ampliada pela adaptação de uma campânula de cabaça, coité, ou chifre animal. Usada principalmente para as chamadas das festividades, ou para o koroná, canto oracional, coletivo ou grupal.
4 – Chocalho / Gridjine - Feito de cabaça ou coité, contendoem seu interior as sementes pinhõnhã (contas de lágrimas de Nossa Senhora). É o marcador de ritmo musical principal nas apresentações de danças e cantorias.
5 – Viola / Graúngô - Existem dois tipos de viola pury, a feita de gomo de bambu ou taquara, se isola fibras de um mesmo gomo, como se fossem cordas, e estas são polidas para se ajustar o som desejado, e são estiradas colocando uma aste abaixo delas para ajustar seus sons. Estas são usadas para o lazer de crianças, ou para as iniciações musicais.
Existem também as violas pury de madeira, uma tábua com uma abertura em seu terço inferior e um braço para estiramento das cordas, adaptadas para usar cordas de violão encontradas no comércio. Tio Juka Pury foi o grande incentivador da adaptação da viola pury para uso orquestral na localidade Cruzeiro, em Guiricema, principalmente nos grupos cantantes de “Modinhas da Serra” formados pelo povo pury da nossa localidade.
Os dois tipos da viola pury adaptadas:
5.1 – Viola Pequena / Pembé Graúngô – Usa apenas três das seis cordas do violão, sendo a mais grossa, uma das do meio e outra, a mais fina. Não sei o nome das cordas. Permite variedade de sons em conjunto, dedilhando, e por atrito de deslocamento de aste de bambu polida.
5.2 - Viola Grande / Eremá Graúngô – Usa as cinco cordas do violão, sem usar a corda mais grossa. Muito usado nas cantorias de “Modinhas da Seerra” dos grupos de cantantes pury de nossa região.
As violas pury adaptadas – As violas pury adaptadas usavam peças de madeira sem caixa de ressonância, podendo adaptar uma cuia de cabaça ou coité para ampliar a ressonância sonora. Eram afinadas conforme os cinco tons da localidade, funcionando a gaita como instrumento orientador das suas afinações.
6 – Tambor / Borára - Um som da natureza, inspirado nostrovões e tempestades, usado como instrumento de comunicação, ou musical. Feito com couro de animal estirado em tronco de madeira oco, ou pote de cerâmica (pó borára) com uma abertura na parte inferior. É um instrumento dedicado à Tupã. Tinha adaptação para uso na cintura, ou apoiado no solo.
7 – Reco-Reco / Teténô - Usa-se junto ao chocalho paramarcar tempo ou ritmo musical. Feito com bambu (gomo entre nós), ou cepo de madeira, com pequenos cortes ou ranhuras, sobre os quais se desliza palhetas de madeira no ritmo adequado.
8 – Batedor / Potxínô – Tábua de madeira onde se bate aoiniciar o ritmo temporal.
9 – Vibração Bucal Musical / Rrapuín Bundá Txoré – Vibraçãosonora produzida pelos lábios, soprando em uma fina lâmina de bambu, imitando o gemido das florestas nas ventanias (píueréma).
Não registrei mais detalhes porque estou com deficiência visual severa, e também por não ter domínio em execuções musicais. Peço desculpas por isto.
Em 07/03/2026
Nhãmãrrúre Stxutér.Kaiá - Felismar Manoel

[1] Nascido e criado na Aldeia Rural (Ambó Goára) da Fazenda dos Gregório no Povoado Cruzeiro no Município de Guiricema, Zona da Mata, em Minas Gerais – de 1939 até 1957. Stxuter Kaiá - Felismar Manoel



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