A árvore sagrada, as árvores frondosas e os encantados na cultura Pury


Nhãmãnrrúre Stxutér Kaiá Pury (Felismar Manoel)
A árvore sagrada
O conceito de árvore sagrada, na língua Pury e na cultura Pury, precisa ser melhor compreendida. A questão de “sagrado”, no entendimento Pury, não tem o mesmo sentido que possui na religião cristã.
Sagrado é algo que é muito respeitado e essencial. Quando se fala que existe uma árvore sagrada, que é uma bokára koimã ou bokára táni. E, o que torna a árvore sagrada é a importância que ela tem para a comunidade do Povo Pury daquela região. Seja ela um símbolo da comunidade ou aldeia, ou seja ela uma árvore de importância, ou cultural, ou alimentar. Junto à árvore sagrada costumava viver um homem santo, táni koimã, ou uma mulher santa, táni boimã. Esse conceito de “santo” também não tem relação com a ideia cristã de santo. Significa que é uma pessoa bondosa.
No lugar onde morei, aldeia rural de Fazenda dos Gregórios, a árvore sagrada ficava bem próxima à casa grande, onde fui criado. Era um pé de coité que se tornou a árvore sagrada, porque o coité teve um grande significado para o povo Pury da região, antes do predomínio da cultura dos invasores. O coité fornecia a cuia, servia de lugar para guardar comida etc. Então ela se tornou sagrada por isso. Nessa árvore havia um artefato feito de uma pequena cuia de coité. Dentro dessa cuia eram colocados elementos que representavam os membros que compunham a aldeia, a comunidade aldeada.
Então, cada pessoa que nascia tinha lá um elemento que a representava. E, o que representava era a conta de lágrima. Mas há lugares em que se utiliza uma pedrinha ou outro fruto que seja duradouro. Geralmente, pegam-se dois coités: um coité grande e um médio, serra-se cada um ao meio e limpa-se as cuias. A cuia menor contém os componentes representativos dos membros da comunidade. A outra cuia, maior, veste a cuia pequena ao contrário e funciona como cobertura. Ela é fixada no entroncamento dos galhos da árvore sagrada.
Há uma árvore sagrada em cada território, por exemplo, a araucária, que produzia o pinhão para aquele povo, ela passa a ser sagrada para ele, porque ela tem uma importância nutricional. Tem a sapucaia que também se tornou uma árvore sagrada pelo bem que ela gerou ao Povo Pury de terminado local. Cada Povo Pury da localidade vai ter sua árvore sagrada.
As árvores frondosas
Já as árvores frondosas, ambó karruá, são a moradia da alma, lamã, tanto dos que são recém-desencarnados, que aguardam o encantamento chamado ambó-gaiúna (aves voando em círculo sobre a região), tanto como os encantados. Não é por isso que ela se torna uma árvore sagrada. O conceito de moradia da alma dos desencarnados está relacionado a qualquer árvore frondosa. A regra defendida pelas lideranças Pury, em 1903, é que, em toda casa de um Pury, haja, no seu quintal, próximo à casa, uma árvore frondosa, uma ambó karruá, para que, nessa árvore, haja a moradia dos espíritos dos mortos e a residência dos encantados. Não são os encantados que vivem nas árvores sagradas. Árvore sagrada é outro conceito. Os encantados vivem nas árvores frondosas, ambó karruá.
Qualquer Pury, minimamente treinado nas práticas da meditação, é capaz de ver - um ver perceber, um ver pelos olhos da nossa alma - a construção feita nos galhos das árvores para a moradia dos encantados. Para ver os encantados, é preciso ter algum dom relacionado ao dom do encantado. Quando a gente tem alguém tem ressonância com eles, é possível ouvir sua voz, seus cânticos, suas rezas e coisas desse tipo, percebendo-os agindo dessa maneira.
Todo encantado é um espírito que presta ajuda a tudo que está vivo aqui na Terra, do ponto de vista da natureza. Para que você veja o encantado, é preciso ter uma sintonia com ele e alguma coisa em comum.
É preciso assumir a identidade purinã (caráter pury) para começar que essas coisas aconteçam. À medida que a gente se aproxima da identidade purinã, ela vai se aproximar da gente. Só que a gente tem que se tornar Pury, realmente. Não é só ter herança consanguínea. Não é voltar a ser gente da mata, não é nada disso.
É cultivar a tekuára-sú (harmonia de todas as coisas – paz natural).



Comentários